AEPGA

 

IV Encontro da Iniciativa Transfronteiriça

A AEPGA organizou o IV Encontro da Iniciativa Transfronteiriça que decorreu no dia 9 de fevereiro em Fornos, Lagoaça, concelho de Freixo de Espada à Cinta. Durante o evento foram apresentados 15 projetos e estiveram presentes mais de 30 entidades portuguesas e espanholas comprometidas com o desenvolvimento sustentável e o combate à despovoação na região raiana.

Estes encontros, que decorrem há dois anos, são dinamizados por um conjunto de entidades ligadas ao desenvolvimento rural, entre as quais a AEPGA, a Vida en la Raya, a Iniciativa Vetonia, o Turismo Arribes del Duero, a plataforma Ciência Aberta e a Palombar.

Esta iniciativa visa a promoção do território da fronteira e das Arribas do Douro para fixar e atrair população, num caminho de médio e longo prazo que começa por cuidar de quem já vive na região. De carácter informal, o projeto aposta sobretudo na proximidade entre os dois lados da fronteira, através de encontros, celebrações e ações comunitárias, procurando aumentar as relações entre os dois países.

Para começar, José Ignacio Herrero Tapia, da associação Vida en la Raya, apresentou a carta de princípios da Iniciativa Transfronteiriça, centrada no reforço do sentimento de pertença ao território, no reconhecimento da diversidade cultural e geográfica entre Zamora, Salamanca, Bragança e Miranda, e na melhoria da qualidade de vida de quem vive na região. Os princípios foram discutidos em grupo e aprovados por unanimidade. A partir desse enquadramento comum, o encontro passou para a apresentação de projetos que procuram responder ao desafio da despovoação e valorizar o território raiano.

O projeto Territorio Jóven, da Associação de Turismo Arribes del Duero, trabalha com escolas e jovens, promovendo o conhecimento do território de Zamora e Salamanca e reforçando desde cedo o sentimento de pertença. No campo do património construído, o “II Encuentro de profesionales y defensores de la piedra seca”, dinamizado pela Red Sapiense e apresentado por Jaime del Barrio Gejo, centra-se na recuperação das técnicas de construção em pedra seca. Na mesma linha, a Plataforma en Defensa de la Arquitectura Tradicional de Aliste, representada por Arsenio da Costa, propôs a recuperação de antigas casetas de guarda e postos de vigilância da Raia, com o objetivo de transformar estas ruínas em observatórios de biodiversidade e num recurso turístico e ambiental gerido pela comunidade local. Em conjunto, estes projetos mostram como a valorização do património e da paisagem pode reforçar a ligação das comunidades ao seu território e à sua história.

A Palombar, representada por Sara Freire, apresentou o projeto Futuros Partilhados”, que junta educação ambiental e artística com jovens e população sénior para explorar a relação entre as comunidades humanas e a biodiversidade, a partir de mitos, crenças e desafios do território. O projeto resultou na revista “Zona de Contacto” e em filmes produzidos pelos jovens, dando voz ao seu ponto de vista sobre estes temas.

Outros projetos apresentados incluem iniciativas de apoio ao empreendedorismo e inovação social no interior, como a incubadora Rural Move e o CEADIR (Centro de Estudos Ambientais e Dinamização Rural) da Universidade de Salamanca, que acompanham empreendedores, criam redes de mentoria para gerar novas oportunidades e testam ideias inovadoras para o desenvolvimento rural. Por sua vez, as representantes da Facendera Arribes, Marta Ruiz e Sofía Bogajo, apresentaram o seu projeto com o lema de “Trabalhar pelas e para as aldeias a partir da própria aldeia, e não do gabinete de uma cidade”.  Paralelamente, o projeto Ambieduca une conservação da natureza, turismo de pequena escala e reabilitação de casas tradicionais, mostrando como o património natural e cultural pode ser um motor de desenvolvimento local.

A AEPGA e a Plataforma de Ciência Aberta apresentaram projetos centrados na conservação da natureza, monitorização de espécies e recuperação de habitats. A Universidade de Salamanca apresentou ainda estudos sobre os impactos do abandono rural e das mudanças demográficas, reforçando a necessidade de planos e ações estratégicos para sustentar a vida no território.

Marga Martín, apresentou Rita Flowers, um projeto inovador que propõe um museu de coroas de flores como forma de dinamizar o território, reforçando o papel que a cultura e a arte podem ter no desenvolvimento local.

A arquiteta Patrícia Reis, da Universidade do Porto, apresentou a sua investigação sobre os territórios de fronteira a partir da arquitetura, defendendo que “habitar a Raia é criar lugares de encontro”. O seu trabalho centra-se na raia seca entre o Alto Minho, Trás-os-Montes e a Galiza, recuperando exemplos históricos de cooperação transfronteiriça, como o antigo microestado do Couto Misto e aldeias comunitárias como Rio de Onor. Através de cartografias e trabalho de campo, mostrou como a morfologia do território, a relação com a água e os modos tradicionais de povoamento favoreceram práticas de cooperação, defendendo que as atuais políticas de cooperação transfronteiriça devem estar mais ligadas às dinâmicas reais do território e das comunidades.

Foi também abordada a escassez de habitações disponíveis nestas regiões, incluindo casas devolutas que poderiam ser reutilizadas, um fator que dificulta a fixação e atração de população para o território raiano.

Destaca-se por fim, a apresentação de um mapa digital de geolocalização das associações, coletivos, empresas e participantes da Iniciativa Transfronteiriça, desenvolvido por José Antonio López. O mapa reúne os contactos e a informação-chave de cada organização, permitindo conhecer quem atua no território e em que áreas, e facilitando o estabelecimento de parcerias e colaborações entre as diferentes entidades.

Em conjunto, estas iniciativas demonstram que a cooperação transfronteiriça pode gerar respostas práticas e enraizadas no território, fortalecendo a identidade local, criando oportunidades e melhorando a qualidade de vida das comunidades. A Palombar destacou também a importância de cuidar e dinamizar atividades com a população mais envelhecida, garantindo que todas as gerações se sintam incluídas na construção do futuro da raia.

O programa incluiu momentos para networking e um almoço-convívio na antiga estação ferroviária de Lagoaça, reativada simbolicamente para o encontro. O evento terminou com uma visita ao miradouro do Carrascalinho, onde decorre o projeto LIFE Rupis, dedicado à conservação de espécies emblemáticas das arribas do Douro, como o abutre-preto e o britango.

A avaliação global do encontro foi muito positiva, ficando assumido o compromisso de dar continuidade a este espaço de partilha e colaboração, com vista à criação de novas parcerias e projetos conjuntos que contribuem para a fixação de população e a valorização do território raiano.

A AEPGA continuará a integrar esta rede transfronteiriça, reforçando o seu contributo para a conservação da natureza, a dinamização do mundo rural e a cooperação entre Portugal e Espanha.


Fotografias de Emanuel Catarino